
Chegar à Praça do Obradoiro, olhar de frente para a Catedral e pousar a mochila no chão é um desses momentos que ficam gravados para sempre. Muitos peregrinos sentem uma mistura de alegria, alívio, nostalgia e até uma certa “ressaca emocional”. E é normal: foram dias (ou semanas) de esforço e de vivências intensas.
No entanto, a experiência não tem de terminar aí. Pelo contrário: o fim do Caminho pode ser o início de outros planos, tanto ligados à peregrinação como diferentes. Opções que te ajudem a assimilar o vivido, a descansar o corpo e a continuar a descobrir a Galiza.
Neste guia encontrarás ideias concretas sobre o que fazer depois de terminar o Caminho: como aproveitar os primeiros dias em Santiago, como prolongar a rota até Finisterra e Muxía, como dividir a peregrinação por etapas para continuar noutro ano e que planos culturais, turísticos e de bem-estar podes desfrutar antes de regressar a casa.
Índice de contenidos
- 1 O que fazer assim que chegares a Santiago de Compostela
- 2 Planos relacionados com o Caminho para prolongar a experiência
- 3 Dividir o Caminho: terminar noutra localidade e retomar a experiência mais tarde
- 4 Planos culturais e turísticos em Santiago depois do Caminho
- 5 Excursões de um dia desde Santiago para continuar a viajar
- 6 Planos de descanso e bem-estar após o Caminho
- 7 Conselhos práticos para planear o “depois” do Caminho
O que fazer assim que chegares a Santiago de Compostela

Recolher a Compostela e outros certificados do Caminho
Um dos primeiros passos ao chegar é dirigir-te ao Gabinete do Peregrino para recolher a Compostela, o documento que certifica que percorreste pelo menos os últimos 100 km a pé ou 200 km de bicicleta.
Para evitar longas filas, convém verificar os horários atuais e, se possível, escolher horas menos concorridas (muitas vezes à tarde).
Além da Compostela, podes solicitar outros certificados, como o de distância percorrida, que indica de onde iniciaste a tua rota. São recordações muito especiais que, para além do papel, representam o teu esforço e o teu processo pessoal.
Visitar a Catedral e viver os ritos do peregrino
O passo seguinte é entrar na Catedral de Santiago. Para além do aspeto religioso, é um lugar carregado de simbolismo para a história da Europa e da peregrinação. Lá poderás:
- Abracar a imagem do Apóstolo no altar-mor.
- Visitar a cripta onde, segundo a tradição, repousam os seus restos mortais.
- Participar na missa do peregrino, onde normalmente se mencionam os locais de origem dos que chegaram nesse dia.
Em determinadas datas ou celebrações, pode haver cerimónia com o botafumeiro, o grande incensário que balança pela nave central. Embora não esteja garantido em todas as missas, se coincidir com a tua chegada, será um momento difícil de esquecer.
Primeiro passeio pelo centro histórico e pelos bairros mais autênticos
Depois de cumprires os “rituais” do peregrino, chega o momento de te deixares levar pelas ruas do centro histórico.
O centro de Santiago está classificado como Património Mundial, com praças e arcadas que convidam a passear sem pressa: a Praza das Praterías, a Praza da Quintana ou a Praza de Cervantes são apenas alguns exemplos.
Também vale a pena visitar zonas um pouco menos turísticas, mas com muito encanto, como o bairro de San Pedro (por onde entram muitos peregrinos) ou o Parque da Alameda. Aqui terás uma das vistas panorâmicas mais bonitas da cidade.
Planos relacionados com o Caminho para prolongar a experiência

Continuar a caminhar até Finisterra e Muxía
Para muitos peregrinos, o verdadeiro “fim” não está em Santiago, mas sim no oceano.
O Caminho até Finisterra e Muxía é uma continuação natural: de Santiago até Finisterra há cerca de 90 km. Se continuares até Muxía, somarás mais 30 km, passando por localidades como Negreira, Olveiroa, Cee ou Corcubión.
Em Finisterra poderás visitar o farol, contemplar a conhecida “Costa da Morte” e, se o tempo ajudar, encerrar a experiência com um pôr do sol sobre o Atlântico. Muxía, por sua vez, oferece-te o santuário da Virxe da Barca e um litoral rochoso de grande força paisagística.
Rotas jacobeias complementares a partir de Santiago (etapas de um dia ou escapadelas curtas)
Se não quiseres embarcar em vários dias de caminhada, outra opção é fazer pequenas etapas de um dia em rotas jacobeias que passam perto de Santiago. Por exemplo:
- Caminhar uma etapa da Via da Prata ou do Caminho Sanabrês no sentido inverso, para conhecer troços menos percorridos.
- Ir até Padrón, local simbólico pela tradição jacobeia, ao qual se chega pelo Caminho Português.
São pequenos “epílogos” que permitem manter a ligação ao espírito do Caminho sem necessidade de carregar novamente a mochila durante vários dias.
Voltar como hospitalário ou voluntário em albergues
Embora esta seja uma opção a longo prazo, outro plano muito enriquecedor é regressar como voluntário ou hospitalário num albergue.
Muitas associações de amigos do Caminho e entidades ligadas à peregrinação oferecem programas para acolher peregrinos durante algumas semanas. Podes ajudar em tarefas de limpeza, receção ou gestão básica.
É uma experiência diferente: passas de peregrino a cuidador, ouvindo histórias e retribuindo parte do que tu próprio recebeste.
Planear um novo Caminho por outra rota jacobeia
Se o “bichinho do Caminho” já despertou, podes aproveitar o fim da tua viagem para planear a tua próxima rota: o Francês, o do Norte, o Primitivo, o Inglês, o Português, o Sanabrês, a Via da Prata, o Caminho de Inverno… Cada um tem a sua personalidade, paisagens e nível de exigência.
Tira uns dias em Santiago para conhecer alternativas, comparar opções e decidir qual será a tua próxima aventura — é uma excelente forma de encerrar esta etapa sabendo que haverá mais.
Dividir o Caminho: terminar noutra localidade e retomar a experiência mais tarde
Nem todos podem dispor de um mês inteiro para caminhar desde o início da rota até Santiago. Por isso, é cada vez mais comum dividir o Caminho em etapas: faz-se uma parte num ano, termina-se numa localidade concreta e retoma-se daí mais tarde.
Esta forma de peregrinar é totalmente válida: permite-te adaptar a experiência às tuas férias, condição física ou orçamento, sem renunciar a completar a rota com calma e a desfrutar de cada etapa. Para organizar o Caminho de Santiago por etapas, convém estudar bem o mapa, as ligações de transporte e os serviços disponíveis no final de cada jornada.
Como escolher o ponto de início e de fim de cada etapa
O mais prático é terminar em localidades que tenham boas ligações de transporte (autocarro, comboio ou aeroportos próximos), além de serviços básicos como alojamento e restauração.
Também é recomendável concluir cada bloco de etapas com uma distância adequada à tua condição física, de modo a que nem fiques aquém (etapas muito curtas que não te permitem entrar “no ritmo”) nem exageres no esforço.
Exemplos de etapas populares segundo a rota jacobeia
- Caminho Francês. É a rota mais conhecida e adapta-se muito bem a ser dividida em blocos: por exemplo, de Saint-Jean-Pied-de-Port a Logroño; de Logroño a Burgos; de Burgos a Leão; de Leão a O Cebreiro; e de O Cebreiro a Santiago. Estas cidades oferecem transporte e serviços, pelo que é fácil terminar aí uma etapa e retomá-la no ano seguinte.
- Caminho Português: rota central e costeira. Ambos os percursos tornaram-se dos mais populares. Um exemplo muito comum é fazer o Oporto Tui Caminho. Ou seja, caminhar primeiro desde a cidade do Porto até Tui e, noutra ocasião, completar o troço Tui–Santiago, que inclui os últimos 100 km necessários para obter a Compostela.
O Porto, Tui, Vigo, Pontevedra ou Padrón são pontos ideais para terminar um bloco de etapas pela sua facilidade de acesso e oferta de alojamento.
-
-
- Caminho do Norte. Também é possível dividi-lo em etapas que ligam grandes cidades costeiras: Irún–Bilbao, Bilbao–Santander, Santander–Gijón, Gijón–Ribadeo, Ribadeo–Santiago, por exemplo. Esta estratégia permite desfrutar da costa cantábrica ao teu ritmo e aproveitar os serviços urbanos no final de cada bloco.
-
-
-
-
- Caminho Primitivo. Mais exigente fisicamente, também pode ser dividido: muitos peregrinos fazem primeiro Oviedo–Lugo e continuam noutro ano de Lugo a Santiago. Ambas as cidades estão bem comunicadas e contam com uma rica oferta cultural e patrimonial, perfeita para encerrar cada etapa.
-
-
-
-
-
- Caminho Inglês. Na verdade, não se divide, mas apresenta duas variantes principais: desde Ferrol e desde A Coruña. Alguns peregrinos escolhem completar primeiro a opção Ferrol–Santiago e, noutra altura, fazer A Coruña–Santiago, aproveitando a oportunidade para visitar ambas as cidades portuárias.
-
-
-
-
- Caminho Sanabrês. Esta opção, por si só, não se divide. No entanto, se estiveres a percorrer a Via da Prata em várias fases, faz muito sentido parar em Ourense e guardar esta rota Ourense–Santiago para o teu “grande final” de peregrinação.
-
-
-
- Outros itinerários. Além das rotas mais conhecidas, existem alternativas como o Caminho de Inverno ou diversas variantes locais. Uma das mais especiais é a variante espiritual a Santiago, que liga o Caminho Português à rota jacobeia marítimo-fluvial conhecida como Traslatio, passando pela ria de Arousa e o rio Ulla antes de se reencontrar com o itinerário tradicional em Padrón.
-
Vantagens de dividir o Caminho em várias experiências
Dividir a rota em etapas permite-te:
-
-
- Ajustar o Caminho à tua agenda laboral e pessoal.
-
-
-
- Adaptar o esforço físico à tua condição, avançando sem pressas.
-
-
-
- Desfrutar mais de cada etapa, sem te preocupares em chegar a Santiago o quanto antes.
-
-
-
- Prolongar a emoção da peregrinação durante vários anos.
-
Planos culturais e turísticos em Santiago depois do Caminho

Museus e espaços relacionados com a peregrinação
Para além da Catedral, Santiago oferece vários museus e espaços culturais que ajudam a contextualizar o que viveste: o Museu da Catedral, o Museu do Pobo Galego ou o Centro Galego de Arte Contemporânea, entre outros. Neles poderás conhecer melhor a história, a tradição jacobeia e a cultura galega.
Roteiros guiados pela cidade: história, lendas e património
Uma boa forma de aprofundar o conhecimento sobre Santiago é participar numa visita guiada temática. Existem percursos que se centram na história medieval, nas lendas e mistérios ou na arquitetura. Como peregrino, permitir-te-á compreender melhor o contexto da cidade onde culmina o teu Caminho.
Gastronomia em Santiago: onde saborear a cozinha galega
Depois de tantos quilómetros, a gastronomia galega sabe ainda melhor. Desde mariscos e peixes até pratos de colher, polvo à feira, empadas ou a clássica tarte de Santiago, a oferta é muito variada. Podes optar por menus do dia mais simples ou oferecer-te uma refeição especial em restaurantes de cozinha tradicional ou de autor.
A zona antiga está cheia de bares e tabernas, mas também vale a pena explorar outros bairros para fugir um pouco das zonas mais saturadas de turistas.
Compras e recordações com significado para o peregrino
Se quiseres levar uma lembrança, podes optar por objetos simbólicos (conchas, cruzes, pequenas esculturas, artesanato local…) em vez de souvenirs meramente turísticos. Escolhe algo que realmente te ligue ao que viveste: um livro, uma peça de artesanato galego ou uma ilustração da Catedral, por exemplo.
Excursões de um dia desde Santiago para continuar a viajar

Rías Baixas
Desde Santiago é relativamente fácil fazer excursões de um dia às Rías Baixas. Poderás desfrutar de praias, vilas piscatórias, visitas a pazos e adegas de albariño. É uma forma fantástica de introduzir um contraste: do interior verde e montanhoso do Caminho à brisa do mar.
Costa da Morte
Para além de Finisterra, se decidires chegar a Finisterra ou Muxía, podes ampliar o percurso até outros pontos como Laxe, Camariñas ou Malpica. Esta zona combina paisagens selvagens, pequenas vilas e uma cultura marítima muito enraizada.
A Coruña e outras cidades galegas
Outra opção interessante é organizar uma escapadela a A Coruña, com a sua emblemática Torre de Hércules, ou a cidades como Vigo, Pontevedra ou Lugo, cada uma com o seu próprio carácter. São destinos acessíveis em transporte público desde Santiago e perfeitos para completares a tua visão da Galiza.
Portugal em maior profundidade
Se chegaste pelo Caminho Português, podes aproveitar o regresso para conhecer cidades como o Porto ou Braga.
Planos de descanso e bem-estar após o Caminho
Termalismo e estâncias termais na Galiza
Depois de tantos quilómetros, o corpo agradece um bom descanso. A Galiza é um destino termal de referência, com especial destaque para Ourense, onde as termas de As Burgas têm mais de dois mil anos de história ligados às suas águas quentes.
Podes aproveitar para passar um ou dois dias na cidade, desfrutar das suas termas e combinar o encerramento com um pequeno retiro de bem-estar.
Atividades suaves: natureza, passeios e turismo rural
Se ainda tiveres vontade de te mexer, mas sem grandes esforços, escolhe percursos simples de natureza ou pequenos passeios por bosques e margens de rio. Também podes optar por breves estadias em casas rurais onde o ritmo diário seja muito mais tranquilo do que durante a peregrinação.
Cuidar do corpo após o esforço: fisioterapia, podologia e recuperação
O final do Caminho é também um bom momento para ouvires o teu corpo. Verificar possíveis sobrecargas musculares, bolhas ou dores nas articulações pode ajudar-te a recuperar melhor e a prevenir problemas futuros, sobretudo se pretendes voltar a caminhar noutro ano.
Conselhos práticos para planear o “depois” do Caminho
Quantos dias extra reservar em Santiago e arredores
Sempre que a tua agenda o permita, é recomendável adicionar pelo menos dois ou três dias extra à tua planificação, pensando antecipadamente no que gostarias de fazer após chegares a Santiago: descansar, visitar a cidade, seguir até Finisterra, fazer uma rota pelas Rías Baixas ou uma escapadela termal.
Como organizar o regresso a casa sem pressas
Tentar regressar no mesmo dia em que chegas a Santiago costuma gerar stress e pode tirar emoção a esse momento tão especial. Sempre que possível, organiza o regresso com alguma margem: uma noite extra na cidade, um almoço de despedida com outros peregrinos e tempo suficiente para desfrutar do final sem olhar constantemente para o relógio.
O que ter em conta se quiseres voltar para continuar o Caminho
Se estiveres a fazer a rota por etapas, anota bem:
-
-
- O ponto exato onde terminas (localidade e, se possível, local concreto como uma praça ou igreja).
-
-
-
- Como chegaste até lá (comboio, autocarro, boleia) e que opções existem para repetir a viagem.
-
-
-
- Em que época do ano gostarias de retomar a experiência e que condições climatéricas vais encontrar.
-
Terminar o Caminho não é apenas chegar à Catedral: é decidir como queres encerrar esta experiência. Talvez o teu plano ideal seja ficar alguns dias em Santiago, talvez seguir a pé até ao mar, talvez dividir a tua peregrinação em vários anos ou tornar-te hospitalário mais tarde.
Seja qual for a tua escolha, o importante é que o “depois” esteja alinhado com o que precisas: descanso, reflexão, natureza, mar, cultura ou novos desafios. Assim, quando regressares a casa, não só terás a satisfação de ter chegado a Santiago, mas também a sensação de ter aproveitado ao máximo uma das experiências mais especiais da tua vida de viajante.





